sábado, 13 de julho de 2013

NEURÓPTERO

Diante à banca de laranjas, lembro que ela costuma escolher, pegar e pesar doze. Estou recém saído do futebol, a quadra fica ao lado do supermercado. Estou suado e de meias, calção e chuteiras. Não é bem um traje comum de se ver alguém trajando em tais lugares, ainda mais desempenhando tais tarefas, mas agora que sou, inclusive, ‘do lar’, digamos que tenho certo estilo ao que se refere conciliar minha vida prévia à atual. Ali, encontro vários conhecidos: homens, mulheres e casais. Uma pessoa se aproxima, é alguém da igreja. A conversa tem início nas formalidades do costume e em seguida adentra pelas atualizações. A pessoa diz que nos visitará. Advirto para que telefone antes, para que nos preparemos. A pessoa faz uma cara que vaga entre a desistência da visita e o não seguir minha advertência e, incógnita, despede-se e parte.

Diante à banca de laranjas, vejo que na maior parte elas estão murchas. Sigo procurando pelas de casca mais fina, comumente as mais caudalosas. Mas é difícil. As que não estão murchas estão feridas. E quem é que me garante que por tais pequenas lesões não entraram ou entrarão microorganismos nocivos ao fruto e, consequentemente, comprometedores da qualidade e do sabor? Uma formiga leão passeia no topo da banca como que vigiando eu e aos frutos.

Diante à banca de laranjas, é cansativo ficar parado e escolhendo, escolhendo e escolhendo entre os frutos que já foram várias vezes preteridos por mãos trêmulas e mãos firmes, mãos limpas e mãos sujas, mãos jovens e bem hidratadas e mãos com dedos nodosos artríticos e ressecados, mãos rústicas calejadas ao cabo da enxada e mãos finas e perfumadas. A formiga leão se coloca de pé e abre as quatro asas como que para intimidar-me. Ela é um neuróptero e seu instinto é predador, essa é sua ordem, sua lei. Compreendo.

Diante à banca de laranjas, não foi difícil chegar à escolha do terceiro fruto, porém a partir dali a coisa foi ficando mais difícil e chata. Da rádio interna do estabelecimento, começou a ecoar um Phil Collins, uma daquelas estoura peito pra quem se alimentou de cultura pop nos anos oitenta, Against All Odds. Lembro de que os últimos dias não têm sido dos mais suaves. A formiga leão me observa enquanto cuida de suas patas com seu aparelho bucal mastigador. Eu preferia simplesmente jogar minha bola e retornar para casa, não ter que fazer compras pensando no que farei para o jantar e simplesmente comer algo preparado por ela.

Diante à banca de laranjas, Phil Collins não dá trégua e a formiga leão me encara insistentemente. Vejo outros conhecidos que passam e acenam. A nona laranja é o marco do final de minha paciência. Não quero escolher mais nada. “Phil Collins, pra com isso, meu!” Não completei a dúzia e quero ir embora. Embora dali com algumas leguminosas, um café solúvel extra forte e nove laranjas. Que a formiga leão fique com o resto da banca e de todas as outras bancas e com o Phil Collins. Eu tenho muito que fazer.