sexta-feira, 16 de março de 2012

LINKIN PARK – THE FLOOR

Noite de sexta, eu fui correr. Tudo bem, tudo tranquilo - quase ninguém faz isso aqui em minha cidade numa sexta à noite. Os barzinhos ficam lotados e a avenida fica vazia de caminhantes e corredores. Apenas carros passam em número considerável. Em uma das margens do lago, a mais distante da entrada da cidade, pescadores urbanos lá estavam com seus banquinhos, equipamentos, ambições, reflexões e cigarros para compor a cena.

Pra não dizer que apenas eu praticava atividade esportiva, havia uma moça caminhante, um casal que também caminhava, um corredor careca pouco ou nada simpático. Passei pelo careca que não deu o menor indício de que retribuiria meu político ‘boa noite!’ - sou desses que cumprimenta a todos. Logo que passei pelo calvo, veio pela frente uma pequena mangueira frondosa cuja copa domina o espaço aéreo sobre a calçada. E havia um caprichoso buraco ali no chão justamente embaixo da árvore. Confluindo o buraco e o mau olhado do careca, a ponta do meu pé alojou-se na loca apenas o suficiente para fazer a alavanca que me arremessaria para frente num golpe inapelável. Vi quando o chão se aproximou rapidamente de meu rosto. Pensei “A cara não!”.

Logo sobreveio o som sólido e surdo do osso batendo contra o cimento. Ecoou dentro de minha cabeça e teve por fundo a música em meu fone. Ironia das ironias. Naquela hora ingrata, eu ouvia uma do Linkin Park – The Floor. E não é que o título da música significa ‘acertar o chão’. Acertei... Mas aconteceu que, num ato reflexo, elevei os braços diante do tórax - o direito foi quem alcançou o chão primeiro salvando o rosto do impacto. O braço ralou-se todo, mas o rosto eu ergui intacto. Quedado frontalmente, fiz rolar sobre o membro ferido. Ergui-me a procurar o MP3 que havia se desprendido da capinha suporte sendo lançado mais à frente. E com o pequeno aparelho em mão, continuei correndo de cabeça erguida. Sequer olhei para trás para ver se do barzinho mais próximo alguém admirava minha queda reativa. Pouco me importava. Eu estava correndo novamente.

Fui até o final do percurso sem perder de vista a dignidade. Um cara que também corria e passaria por mim na direção oposta logo em seguida ficou olhando muito, usou de toda indiscrição que dispunha. E não perguntou nada. Era apenas curiosidade. E como perguntar se estava tudo bem ao ver o cara cair, rolar para o lado e continuar a corrida? Minutos depois cheguei em minha casa com o braço dolorido, ralado e pronto para escrever a desventura de acertar o chão.