Ah, então é hoje o dia do amigo? Muito bom! Tudo que sei, aprendi com os amigos. Meu pai é meu melhor amigo, e atualmente concorre com meu filho. E em algum momento, que me lembre, até quem não era tão meu amigo, foi meu amigo. Amigos podem ser efêmeros, contudo a consideração sua e deles é o que conta. Você pode ter tido um amigo que ficou lá no início da estrada e, ainda assim, lembrá-lo com respeito em saudade no seu centenário aniversário. Mas, ao menos em minha vida, os amigos de verdade começaram lá nos remotos anos da escola primária, primeira, imberbe, precoce, titubeante, assustadora ‘º~º’ Companheiros ainda não de trincheiras, mas de lancheiras. Que amigo que se preze, amigo legítimo, irmão de fé, esse oferecia um pedacinho disso ou um golinho daquilo que a mãe havia lhe preparado com amor, ternura e carinho. Isso sim é que é demonstração de amizade. Pois se a mãe mandou pro rebento, era por conta de ele gostar muito do dito lanche em questão, amigão. Aí o cara ia, e com a nobreza de espírito e o altruísmo que tem somente essa gente que possui fibra de verdadeiro amigo, lhe oferecia um pedaço. Isso quando não repartia. Repartia sem pesar e, por vezes, até com um discreto sorriso de satisfação. Amigão! Repartir é até um termo já em desuso, esquecido. Hoje dividimos. E dividir é uma espécie de empréstimo compulsório. Você divide problemas, neuras, desabafos, tudo que não presta e lhe incomoda. É pra isso que usamos os amigos. Uma espécie de papel higiênico emocional. Amigo útil é amigo usável. Uma balburdia. Eu tinha um amigo, o Adriano, irmão do Pirata e do Bicudo, ele que, caprichosamente, levava pão com manteiga para os intervalos do recreio. O pão ia embrulhado meticulosamente em um guardanapo de pano, muito alvo, muito limpo. Coisa de mãe mais que zelosa. Eu não levava lanche algum, nem nunca quis um pedaço do pão com manteiga dele, mas ele oferecia. Era aquilo que tinha para o dia, era aquilo que oferecia. Pão com manteiga. E quem é que, em sã consciência, ia querer pão com manteiga, quando havia inúmeras opções mais gordurosas, nutritivas e saborosas? Ele até tinha amigos, mas não interesseiros interessados em seu lanche, não. O pão com manteiga dele era um depurador de suas relações sociais, um divisor entre estes e aqueles outros indesejáveis. Por que, na verdade na verdade, quem é que vai se aproximar de alguém por conta de um lanche de pão com manteiga quando o governo já ofereceu até sopa? Quando os mais abastados podem oferecer um pedaço da dadivosa coxinha de queijo? Quem? Pois eu posso dizer e afirmar, sem qualquer receio de que alguém me constranja me desmascarando em um lugar público ou aqui mesmo, nesta rede social, que sempre fui um amigo verdadeiro. Fui amigo pela amizade, e jamais por conta de um pedaço de lanche. Inda mais um pão com manteiga babado.