segunda-feira, 24 de setembro de 2012

CARTA ABERTA AO AMIGO ESCRITOR MENALTON BRAFF EM COMENTÁRIO A SUA CRÔNICA “A VOZ DAS ESTATÍSTICAS”

Que misterioso esse seu amigo que já não está neste ou em qualquer outro mundo! Foi a repressão, não? Mas esse seu amigo misterioso era também, com o perdão da palavra e sem intenção de ofender e sim praticar o bom humor, era meio mórbido. Essa tese que diz que a estatística serve para provar que, se um sujeito puser a cabeça dentro de um forno a cem graus centígrados e os pés dentro de um frízer a zero grau, sua temperatura média será de cinquenta graus é assustadora. Contudo os resultados serviriam aos sucessores estudiosos do assunto. Que horror!

Eu também tenho uma biblioteca razoável. Livros que me acompanham pela vida inteira. Vários são de coleções realizadas pelos jornais e editoras. Não sei quantos volumes já acumulo, mas creio estar próximo desses que encorpam este 1% estatístico ao qual o mestre pertence com muito brilhantismo.

É complicado. Se olharmos para a criança, veremos que ela precisa comer. Mas se olharmos com carinho, veremos que, após comer, ela precisa ler. Livro ainda é artigo de luxo aqui. E a educação não deve ser lançada ao lixão.

Abraço, mestre!


sexta-feira, 20 de julho de 2012

O DIA DO AMIGO PÃO COM MANTEIGA

Ah, então é hoje o dia do amigo? Muito bom! Tudo que sei, aprendi com os amigos. Meu pai é meu melhor amigo, e atualmente concorre com meu filho. E em algum momento, que me lembre, até quem não era tão meu amigo, foi meu amigo. Amigos podem ser efêmeros, contudo a consideração sua e deles é o que conta. Você pode ter tido um amigo que ficou lá no início da estrada e, ainda assim, lembrá-lo com respeito em saudade no seu centenário aniversário. Mas, ao menos em minha vida, os amigos de verdade começaram lá nos remotos anos da escola primária, primeira, imberbe, precoce, titubeante, assustadora ‘º~º’ Companheiros ainda não de trincheiras, mas de lancheiras. Que amigo que se preze, amigo legítimo, irmão de fé, esse oferecia um pedacinho disso ou um golinho daquilo que a mãe havia lhe preparado com amor, ternura e carinho. Isso sim é que é demonstração de amizade. Pois se a mãe mandou pro rebento, era por conta de ele gostar muito do dito lanche em questão, amigão. Aí o cara ia, e com a nobreza de espírito e o altruísmo que tem somente essa gente que possui fibra de verdadeiro amigo, lhe oferecia um pedaço. Isso quando não repartia. Repartia sem pesar e, por vezes, até com um discreto sorriso de satisfação. Amigão! Repartir é até um termo já em desuso, esquecido. Hoje dividimos. E dividir é uma espécie de empréstimo compulsório. Você divide problemas, neuras, desabafos, tudo que não presta e lhe incomoda. É pra isso que usamos os amigos. Uma espécie de papel higiênico emocional. Amigo útil é amigo usável. Uma balburdia. Eu tinha um amigo, o Adriano, irmão do Pirata e do Bicudo, ele que, caprichosamente, levava pão com manteiga para os intervalos do recreio. O pão ia embrulhado meticulosamente em um guardanapo de pano, muito alvo, muito limpo. Coisa de mãe mais que zelosa. Eu não levava lanche algum, nem nunca quis um pedaço do pão com manteiga dele, mas ele oferecia. Era aquilo que tinha para o dia, era aquilo que oferecia. Pão com manteiga. E quem é que, em sã consciência, ia querer pão com manteiga, quando havia inúmeras opções mais gordurosas, nutritivas e saborosas? Ele até tinha amigos, mas não interesseiros interessados em seu lanche, não. O pão com manteiga dele era um depurador de suas relações sociais, um divisor entre estes e aqueles outros indesejáveis. Por que, na verdade na verdade, quem é que vai se aproximar de alguém por conta de um lanche de pão com manteiga quando o governo já ofereceu até sopa? Quando os mais abastados podem oferecer um pedaço da dadivosa coxinha de queijo? Quem? Pois eu posso dizer e afirmar, sem qualquer receio de que alguém me constranja me desmascarando em um lugar público ou aqui mesmo, nesta rede social, que sempre fui um amigo verdadeiro. Fui amigo pela amizade, e jamais por conta de um pedaço de lanche. Inda mais um pão com manteiga babado.

terça-feira, 15 de maio de 2012

CORRER COM FRIO É PARA OS FORTES

Cuidava de minha vida, corria após um dia de muito trabalho; ouvia Slayer - Raining Blood, quando terminei o percurso ao qual me propus... Fazia frio e o vento cortante castigaria minhas orelhas, caso não estivesse de touca; a velha touca empoeirada dos outonos e invernos passados Aliás, tanto a touca como a camiseta preta que usei hoje são as mesmas da foto do perfil do twitter, por sinal, realizada na mesma época do ano passado Eu repito roupas, palavras, minha cara; sou praticamente uma nova edição do mesmo a cada ano; a vaidade que possuo é visceral º~º  #eurepitoroupas, mas se você não repete, sorte sua. E corri até o final; correr hoje foi apenas para os fortes... Ferdinando Costacurta, que se diz bom de bola e destemido como poucos, chegou a sair para correr, contudo logo desistiu...  Talvez pelo frio, talvez estivesse com uma cueca rota com elástico frouxo lhe invadindo a fenda glútea, talvez tenha tido uma súbita dor de barriga (quem corre sabe que correr com indícios de dor de barriga é estar no fio da navalha). Talvez Ferdinando Costacurta encontrasse forças adicionais, caso estivesse ouvindo um Slayer - Raining Blood http://youtu.be/7KsPZ1f7MDs como eu. Não sei os motivos do fracasso de Ferdinando Costacurta esta noite, só sei que ele desistiu de sua corrida... Correr, esta noite, foi apenas para os fortes º~º  

domingo, 6 de maio de 2012

NOVO FORAME

O ator e diretor, Urbano Branco, faleceu, aos 45 do primeiro tempo, neste domingo. Ele deixa dois ou três filhos e alguns trocados em cima da televisão. A morte foi confirmada pelo irmão dele. O copo do ator foi encontrado caído com ele perto da cama. Segundo o irmão, o irmão fumava muito, bebia pra caramba e estava depressivo. A caixa preta da vida do ator permanecerá lacrada a pedido dos familiares. O corpo passará por autópsia enquanto o ator permanecerá morto. Ele é suspeito de ter provocado a própria morte. E caso a suspeita se confirme em fato, o ator será indiciado por homicídio doloso. A pena prevista para os casos de auto extermínio vai de um milhão de anos a uma eternidade.

terça-feira, 27 de março de 2012

O CHOQUE

Tomei um choque considerável na campainha. Tudo começou quando dobrei a esquina, correndo, sob forte vento e chuva em diagonal, sob clarões titânicos que acendiam a rua que já tinha metade de sua luz por conta da iluminação pública. Mas antes de chegar à esquina, eu corria para sair da avenida onde corro todos os dias. Por coincidência, meu pai me viu e ofereceu carona. Eu recusei com um vigoroso gesto de siga em frente que não deixou nenhuma dúvida de que eu estava resoluto em seguir enfrentando a fúria da natureza por mais duas quadras e meia. Ele sabe que sou assim, decidido. Deve me achar meio falto de um parafuso, mas isso não importa. Este parafuso nem faz lá muita falta, se é que falta, eu acho. Mas voltando à avenida, eu subia os primeiros canteiros sendo castigado pelas gotas que me faziam procurar por pedriscos para justificar as picadas em minha pele. Tudo debaixo dos clarões intermitentes dos raios que me intimidavam sobremodo, e não vá dizer que não tem medo de raios estando molhado e a céu aberto que eu lhe desminto prontamente. E antes de ganhar os canteiros da avenida, passei grande apuro ao cruzar a rua que fica ao fundo da represa. Nada impedia a saraivada de densas gotas que açoitavam a metade esquerda de meu corpo. Pobre de meu rosto! Ai de minha orelha! Coitado de meu ouvido! Certamente irá inflamar, a não ser que eu pratique alguma profilaxia. Não. Isso não. Auto medicar-se é um crime. Um crime de ignorância e desinformação. Sou um profissional da área da saúde. Como diria o apóstolo Paulo, “nem tudo que posso me é lícito”. No mais, nem posso. Não sou médico. Não farei isso. Acho que não. Não sei. Mas deixe estar o meu ouvido. Que o tempo se encarregue de nossos destinos, meu e de meu ouvido. Voltemos ao fundo da represa. Ou melhor, antes do fundo da represa, quando eu fazia a curva ao pé da enorme, gigantesca arvore que ali habita. Creio seja uma farinha seca. Assim chamamos àquela espécie por aqui. Senti uns pingos esparsos. Um aqui, outro ali. O céu estava mesmo carregado por nuvens densas e com uma cor cinza escura muito sombria. Mas quem é que sabe o exato momento em que cairá uma chuva? E eu bem que desconfiei. Antes de estar ali, naquela situação chuvosa, eu descia velozmente a avenida que leva à represa. Seria perfeito, caso a chuva retardasse em aproximadamente quarenta minutos sua queda. Ao colocar os pés na rua, intuí que teria que ser rápido como um Pégaso. E antes mesmo de colocar os pés na rua, eu já me vestia apressado. Tinha pressa assim que cheguei do trabalho. O céu estava muito perto do chão. Temi. O céu assim tão perto do chão pode não ser um bom sinal. Alguém pode acabar subindo. Há sempre o risco quando o céu está tão baixo. Era o crepúsculo do pós dezoito horas em início de outono. Cheguei a comentar que iria dar uma corrida rápida, e com sorte voltaria antes da chuva. Minha irmã estava aqui em casa, fez cara de dúvida, fez cara de incerteza, fez cara de incerteza misturada com dúvida. Fez uma cara de que não sabia se eu venceria ou se venceria a chuva. Mas eu já estava decidido. Não haveria cara de dúvida com incerteza, ou cara de chuva que me dissuadiria de meu propósito. E meu propósito era correr. Corri quase nada. Dos quarenta minutos planejados, corri apenas uns quinze. Correria mais mesmo sob vento e forte chuva, caso não fosse os relâmpagos. O problema é que tenho medo de relâmpagos. Tenho medo de tudo que é modalidade de choque. E eu estava encharcado ao chegar diante do portão de casa. E eu quase fiquei grudado ao apertar a campainha. Como disse no início deste, tomei um baita choque “º~º”

sexta-feira, 16 de março de 2012

LINKIN PARK – THE FLOOR

Noite de sexta, eu fui correr. Tudo bem, tudo tranquilo - quase ninguém faz isso aqui em minha cidade numa sexta à noite. Os barzinhos ficam lotados e a avenida fica vazia de caminhantes e corredores. Apenas carros passam em número considerável. Em uma das margens do lago, a mais distante da entrada da cidade, pescadores urbanos lá estavam com seus banquinhos, equipamentos, ambições, reflexões e cigarros para compor a cena.

Pra não dizer que apenas eu praticava atividade esportiva, havia uma moça caminhante, um casal que também caminhava, um corredor careca pouco ou nada simpático. Passei pelo careca que não deu o menor indício de que retribuiria meu político ‘boa noite!’ - sou desses que cumprimenta a todos. Logo que passei pelo calvo, veio pela frente uma pequena mangueira frondosa cuja copa domina o espaço aéreo sobre a calçada. E havia um caprichoso buraco ali no chão justamente embaixo da árvore. Confluindo o buraco e o mau olhado do careca, a ponta do meu pé alojou-se na loca apenas o suficiente para fazer a alavanca que me arremessaria para frente num golpe inapelável. Vi quando o chão se aproximou rapidamente de meu rosto. Pensei “A cara não!”.

Logo sobreveio o som sólido e surdo do osso batendo contra o cimento. Ecoou dentro de minha cabeça e teve por fundo a música em meu fone. Ironia das ironias. Naquela hora ingrata, eu ouvia uma do Linkin Park – The Floor. E não é que o título da música significa ‘acertar o chão’. Acertei... Mas aconteceu que, num ato reflexo, elevei os braços diante do tórax - o direito foi quem alcançou o chão primeiro salvando o rosto do impacto. O braço ralou-se todo, mas o rosto eu ergui intacto. Quedado frontalmente, fiz rolar sobre o membro ferido. Ergui-me a procurar o MP3 que havia se desprendido da capinha suporte sendo lançado mais à frente. E com o pequeno aparelho em mão, continuei correndo de cabeça erguida. Sequer olhei para trás para ver se do barzinho mais próximo alguém admirava minha queda reativa. Pouco me importava. Eu estava correndo novamente.

Fui até o final do percurso sem perder de vista a dignidade. Um cara que também corria e passaria por mim na direção oposta logo em seguida ficou olhando muito, usou de toda indiscrição que dispunha. E não perguntou nada. Era apenas curiosidade. E como perguntar se estava tudo bem ao ver o cara cair, rolar para o lado e continuar a corrida? Minutos depois cheguei em minha casa com o braço dolorido, ralado e pronto para escrever a desventura de acertar o chão.